- Papai, que fogueira é aquela?
- É um ônibus queimando minha filha.
- E quem colocou fogo nele?
- Foram algumas pessoas descontentes com a forma como nossas
vidas caminham. Jovens reagindo ao absurdo, ao governo, ao silêncio...
- E pode colocar fogo nas coisas?
- Acredito que quando dão mais valor às coisas que às
pessoas é hora de fazer uma boa fogueira. Se tratam as pessoas todos os dias
como objetos, como instrumentos, roubando ou tirando a vida delas, e os bens,
as máquinas, com afeto, desejo e apego, uma reação é mais do que normal, é
necessária.
- Mas por quê fizeram isso hoje?
- Porque aumentaram o valor da passagem, que já era cara, e
não quiseram ouvir ninguém que contestasse essa decisão. Sabe filha, algumas
pessoas não têm limites em seus desejos de ganância e poder, o que importa pra
elas são seus ganhos pessoas, não se importam realmente com a comunidade, com
os outros. Se às vezes demonstram essa preocupação, é puro espetáculo, é como
no teatro, usam máscaras e representam o que não são.
- Então é bom o que esses meninos estão fazendo?
- Olha, o caminho do diálogo sempre deve ser tentado, o
problema é quando ele é impossibilitado antes mesmo de acontecer, de ser
efetivado. Essa forma de governo em que vivemos busca atender antes os
interesses privados, de alguns, depois se propõem a sentar pra conversar, o que
não é propriamente diálogo, é uma espécie de concessão. Respondendo a sua
pergunta, se é bom ou não, é difícil dizer de imediato. Agora se me perguntar
se é justo, isso sim posso te afirmar que é.
- Se é justo, por quê a polícia bate neles então?
- Isso é um pouco difícil de entender... Teoricamente a
polícia compartilha a mesma situação social que eles, mas assumem a posição de
quem vive outra realidade e os comanda. Em troca eles acabam vivendo uma
situação de poder que é ilusória, temporária, que acaba logo que voltam pras
suas vidas sem fardas, sem regalias ou prestígio social. Já essa violência é
resquício do período ditatorial que o país viveu, a polícia acabou herdando o
militarismo e a incompreensão da situação de cidadania e direito constituído de
manifestação. Em outras palavras, se alienam de sua própria realidade,
assumindo a responsabilidade de manter um estilo de vida que nem é seu ou de
sua família e exercem o poder que lhes é dado com tanta força, com tanto
entusiasmo, como se fosse a última possibilidade de realmente exercê-lo. Como
eu disse, é um pouco difícil. Você precisa entender que acima de tudo são
pessoas, humanos como nós, que cometem erros e também sonham, mas que vivem no
momento uma percepção equivocada da realidade.
- Mas eu vi na TV um homem chamando esse pessoal de
vagabundo. Por quê?
- Hummm... Essa também é um pouco complicada. A mídia não
expressa necessariamente a verdade, ela apresenta um ponto de vista, que por
sua vez é diretamente vinculado a quem a financia. Quem paga acaba dizendo o
que é a verdade. Quem mais financia a mídia como ela é hoje em dia é o próprio
governo com seus anúncios e os empresários, dentre eles os que se dizem donos
desse ônibus, que foi financiado com recursos públicos a partir de um contrato
de exploração de um serviço também público. Então, como podemos interpretar a
defesa do governo e dos empresários e a condenação dos jovens que protestam?
- Ah, acho que entendi papai. Esses meninos não são maus,
mesmo que a TV diga isso e a polícia bata neles. Eles apenas querem o que nos
ensinam, quando dizem que temos direito à educação, a uma casa, a um transporte
público de qualidade, a ser feliz. É isso?
- Acho que é bem isso minha filha! Agora molha um pouco mais
sua bandana com vinagre e abaixa a cabeça que lá vem mais uma chuva de balas de
borracha.
A injustiça alimentou por toda a noite o fogo que ali
consumiam ônibus. Por sua vez, a cidade respirou viva novamente, apesar do gás
lacrimogênio. Os pulmões cheios de juventude e rebeldia.
Diego Mendonça